'Quem tiver nojo de sangue, não vá': áudios mostram presidente da Bamor convocando integrantes para sessões de tortura na Bahia

  • 21/10/2026
(Foto: Reprodução)
Presidente da Bamor convoca integrantes e diretores para tortura de vítima "Vamos pegar até uns alicates para a gente arrancar as unhas dele." A frase faz parte de áudios gravados por Matheus Pires Castro, presidente da Bamor, maior torcida organizada do Bahia, e enviados a diretores e integrantes do grupo. Ele e outras nove pessoas foram presas em 28 de setembro, suspeitas de participar dos crimes. Todos permanecem presos. Nas mensagens, obtidas pelo g1 e pelo TV Bahia, ele convoca pessoas para sessões de tortura física e psicológica que, segundo as investigações do Ministério Público da Bahia (MP-BA), ocorreram na sede da entidade, em Salvador, em julho deste ano. Em uma das gravações, Matheus Castro afirma que quem tivesse nojo de sangue não deveria comparecer ao local. Em outra, diz que uma das vítimas precisava apanhar para servir de exemplo. As mensagens também mostram o presidente minimizando o risco de consequências policiais e ameaçando provocar ferimentos graves. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia Em 2 de outubro, o MP-BA denunciou os 10 por crimes como organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça. Matheus Pires Castro, presidente da Bamor, maior torcida organizada do Bahia Reprodução/Redes Sociais Nas gravações, o presidente da Bamor fala sobre as agressões que pretendia promover e tenta afastar integrantes que demonstrassem receio de participar das sessões de violência. Em um dos trechos, ele minimiza a possibilidade de consequências para os envolvidos: "Porra nenhuma, meu irmão, que nada. Vai dar porra nenhuma, irmão". Em outra mensagem, anuncia o que pretendia fazer com uma das vítimas: “Amanhã é tirar a saúde dele. Vamos pegar até uns alicates para a gente arrancar as unhas dele”. Marcas nas costas de uma das vítimas Reprodução/TV Bahia O presidente também orienta que integrantes contrários às agressões não compareçam à reunião e afirma que a vítima deveria sair do local com ferimentos graves. "Então, quem for amigo, quem ficar com pena, quem falar que pode dar merda porque a família pode correr atrás, que pode dar polícia, nem vá para a reunião. Deixa que quem quiser resolve, entendeu? Porque amanhã ele vai ter que sair com a mão esmagada para, de lá, ele fazer cirurgia. Tem que se foder e apanhar mesmo para servir de exemplo". Em outro áudio, ele faz referência à possibilidade de uma cena violenta: "Amanhã a gente vai pegar ele daquele jeito. Quem tiver nojo de sangue não vá, porque a gente vai pegar ele e vai ser uma cena triste para ficar de exemplo". Depoimentos revelam tortura dentro da sede da torcida da Bamor Em uma das falas mais explícitas, ameaça provocar um ferimento na cabeça da vítima: “A gente vai abrir logo a cabeça dele lá no meio, essa desgraça”. A defesa de Matheus Pires e Luciano Venâncio, vice-presidente da Bamor, declarou em nota "que seus clientes são inocentes" e que "todas as medidas judiciais já estão sendo adotadas". Sessões de torturas duraram horas Sede da torcida organizada Bamor, localizada em Salvador Google Maps Segundo as investigações do MP-BA, pelo menos duas pessoas foram submetidas a sessões de agressões físicas e psicológicas dentro da sede da torcida, em julho deste ano. Os episódios teriam ocorrido na sala da diretoria e durado horas. Uma das vítimas integrou a Bamor por 18 anos, foi líder de arquibancada e era responsável pelo sistema de cadastro de associados. Segundo as apurações, ele foi chamado à sede sob a acusação de ativar planos de sócios sem identificar os respectivos repasses financeiros. A outra vítima prestava serviços de tecnologia para a torcida e também negou ter participado de qualquer fraude. Conforme as investigações, ela passou por uma dinâmica semelhante após sugerir que o caso fosse levado à polícia. De acordo com o MP-BA, as vítimas teriam sido pressionadas a confessar supostas irregularidades. As agressões incluiriam espancamentos, ameaças, sufocamento e simulação de afogamento. Os investigadores também apontam o uso de taco de beisebol, martelo e alicate. No dia das prisões, policiais apreenderam martelos, um alicate e um taco de beisebol na sede da torcida. Os objetos foram reconhecidos pelas vítimas. Suspeitos foram denunciados Suspeitos foram denunciados pelo MP-BA Reprodução/TV Bahia Em 2 de outubro, o Ministério Público denunciou os 10 investigados por crimes como organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça. Os denunciados são: Matheus Pires Castro, presidente da Bamor; Luciano da Silva Venâncio, vice-presidente; Gabriel Pereira Silva, diretor-geral; Daniel Sena Duarte, diretor de sede; Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing; Diego Allan Conceição Sacramento, diretor de patrimônio; Ivã Cleiton de Jesus Santos, diretor de bateria; Luiz Wagner da Silva Santana, diretor de sede; Alan Rafael Regis Alves de Aquino, diretor financeiro; Fernando Santana Esquivel, policial militar apontado como integrante da torcida organizada. Segundo a promotora de Justiça Thelma Leal, do MP-BA, todos os integrantes presos teriam participado das agressões, embora em diferentes graus. "O presidente e o vice estão presos. Todos participaram ativamente dos atos de tortura, de alguma forma, com maior ou menor proporção. Os relatos das vítimas dão conta que todos que estão presos participaram", afirmou. A promotora ressaltou que as prisões atingiram integrantes da cúpula da torcida e disse esperar que a entidade passe por uma mudança de liderança e adote medidas para evitar novos episódios de violência. Relato de agressões e transferência de dinheiro Em entrevista ao Bahia Meio Dia, da TV Bahia, uma das vítimas contou que foi à sede da Bamor para prestar esclarecimentos e não imaginava que seria torturada. "Compareci, de boa-fé, a fim de prestar todos os esclarecimentos a ele, apesar de não ter cometido nenhum ilícito e saber da possível fraude que houve, mas em momento algum eu suspeitei que seria torturado", relatou. Segundo a vítima, as agressões duraram cerca de quatro horas e incluíram pauladas, golpes com taco de beisebol, tentativas de ferir os dedos e as orelhas com alicates e simulações de afogamento. Ela também afirmou que os suspeitos exigiram a senha de uma conta bancária durante as agressões. Após fornecer os dados, teve cerca de R$ 5,8 mil transferidos para uma conta da associação, segundo o relato. O MP-BA também apura a subtração do celular de uma das vítimas e a realização de transferências bancárias durante os episódios. Para os investigadores, os fatos podem configurar crimes de roubo e extorsão, além das acusações de tortura. Bamor diz que responsabilidades devem ser individualizadas Diretoria da BAMOR é presa, acusada de tortura Reprodução/TV Globo Em nota, a torcida organizada afirmou respeitar o trabalho das autoridades e disse esperar que as investigações sejam conduzidas com base em critérios objetivos, uniformes e impessoais. O grupo também declarou que não colabora com condutas ilícitas e defendeu que eventuais responsabilidades sejam apuradas de maneira individualizada. O MP-BA esclareceu anteriormente que a investigação sobre as sessões de tortura é direcionada aos integrantes suspeitos de participação nos crimes, e não à Bamor enquanto associação. Segundo a promotora Thelma Leal, a sede foi fechada porque os episódios investigados teriam ocorrido no local. A ação foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-BA, com participação de equipes da Polícia Civil, da Polícia Militar e de órgãos da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/10/21/audios-mostram-presidente-da-bamor-convocando-integrantes-para-sessoes-de-tortura-na-bahia.ghtml


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