Pesquisadores identificam sala onde ditadura simulou suicídio de Vladimir Herzog
29/03/2026
(Foto: Reprodução) Caso Herzog: o fim de um mistério
Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo identificou o cenário de uma das cenas mais simbólicas da ditadura militar no Brasil.
Uma equipe de historiadores, arqueólogos e arquitetos encontrou a sala onde foi montada a farsa da morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, no DOI-Codi, centro de repressão que funcionava na região central de São Paulo.
O local exato da encenação era um enigma que durava mais de 50 anos.
A descoberta foi possível após a análise de estruturas do prédio, como paredes, piso e teto, e o cruzamento dessas informações com registros históricos e imagens da época.
Segundo os pesquisadores, o som oco de uma parede ajudou a revelar um espaço escondido e levou à identificação do ambiente.
“Trazer luz para esse acontecimento é dar voz também a outras tantas pessoas que também foram presas, torturadas, sequestradas e tiveram seus direitos violados aqui nesse edifício”, afirmou Deborah Neves, coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi.
Prédio foi centro de tortura da ditadura
O DOI-Codi, sigla para Destacamento de Operações de Informações, Centro de Operações de Defesa Interna, funcionava no prédio analisado pela equipe.
No local, presos políticos foram detidos, torturados e mortos durante o regime militar.
Durante as escavações, os pesquisadores encontraram marcas feitas por um prisioneiro para contar os dias no cárcere. Os registros estavam escondidos sob camadas de tinta e azulejo.
Na década de 1980, o edifício passou por reformas para abrigar o Instituto de Criminalística, o que alterou parte das estruturas originais.
“Alguns elementos já indicam isso, como esses balcões revestidos com azulejo e o piso vinílico, a cobertura com esse piso vinílico são alterações produzidas provavelmente a partir do ano de 1985”, disse Deborah Neves.
A farsa da morte de Herzog
Cela onde Vladimir Herzog foi morto.
Reprodução/Fantástico
O maior desafio da equipe foi identificar a sala onde foi tirada a imagem que se tornou símbolo da ditadura.
A foto mostra o corpo de Vladimir Herzog pendurado pelo pescoço na grade de uma janela. A cena foi montada para sustentar a versão oficial de suicídio.
Na realidade, o jornalista foi torturado e morto no DOI-Codi.
Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura e havia sido convocado a prestar depoimento.
“Algumas pessoas inclusive orientaram ele, recomendaram: 'Não vai, a ditadura tá pegando'. Ele disse pra Clarice: 'Fica tranquila, não tem por que eles, é.., me prenderem ou fazer qualquer maldade comigo"', relatou Rogério Sottili, diretor do Instituto Vladimir Herzog.
Ele se apresentou na manhã de 25 de outubro de 1975. No mesmo dia, a ditadura divulgou a imagem forjada.
“Claramente não é uma cena de suicídio, e sim uma cena que foi forjada para ocultar uma morte que aconteceu em decorrência das torturas”, afirmou Deborah Neves.
Elementos que confirmam o local
A equipe comparou detalhes da fotografia com o espaço físico encontrado.
Entre os indícios estão:
o piso de madeira, posteriormente coberto;
a janela com blocos de vidro e grade;
marcas na parede compatíveis com a estrutura da grade;
irregularidades abaixo da janela, ainda visíveis;
vestígios da caixa de ferrolho ao lado da porta;
dobradiças originais que não foram substituídas.
A foto mostra que o piso da sala era de tacos, posteriormente cobertos por outro tipo de piso. A janela com blocos de vidro tinha uma grade. Remendos na parede coincidem com os pontos em que a grade estava fixada e mostra ainda uma irregularidade na parede embaixo da janela, que continua no local.
Outra imagem, presente no laudo da morte do policial militar José Ferreira de Almeida, também em 1975 e ocorrida na mesma sala, reforça a identificação. Nessa imagem, há um retângulo ao lado da porta, onde ficava a caixa do ferrolho, retirada durante a reforma.
No lugar, os pesquisadores encontraram um buraco compatível com essa estrutura. Na reforma do prédio, as dobradiças da porta não foram substituídas.
Com base no conjunto de evidências, os pesquisadores afirmam ter alcançado um grau suficiente de comprovação.
“Considerando as informações documentais e cruzando com essas análises físicas, eu considero suficiente a comprovação da hipótese de que a encenação foi feita nessa sala”, afirmou o arquiteto responsável pelo estudo.
Relatos ajudam a reconstruir o espaço
Depoimentos de vítimas da ditadura também ajudaram a entender o funcionamento do local.
Ivan Seixas foi levado ao DOI-Codi aos 16 anos, junto com o pai, que foi morto após dois dias de tortura.
Ele relatou agressões já na chegada ao prédio e descreveu a violência dentro do espaço.
Após passar pelo DOI-Codi, ele foi transferido para o DOPS, outro órgão de repressão em São Paulo.
O prédio do DOPS hoje abriga o Memorial da Resistência, que preserva a memória das violações de direitos humanos durante o regime.
Espaço pode virar memorial
Pesquisadores e o Instituto Vladimir Herzog defendem que o DOI-Codi também seja transformado em um espaço de memória.
Atualmente, o prédio é tombado, mas ainda é utilizado como estacionamento de viaturas policiais.
Desde 2021, uma ação do Ministério Público de São Paulo pede a criação de um centro de memória no local.
“As pessoas têm que saber disso, têm que ter o direito de visitar aquele lugar”, afirmou o procurador-geral Plínio Gentil.
Em nota, a Secretaria de Cultura do estado disse que São Paulo já conta com o Memorial da Resistência, dedicado à preservação da memória das violações de direitos humanos no período.
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