Mico ou inovação? Por que candidatos querem mais data centers no Brasil enquanto cresce a rejeição nos EUA

  • 03/10/2026
(Foto: Reprodução)
Vista aérea de um data center da AWS que integra a região US-EAST-1, no norte da Virgínia, nos EUA Reuters/Jonathan Ernst Incentivos fiscais, fabricação local de componentes e IA brasileira: os candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas apresentam essas como algumas das propostas em seus planos de governo para atrair a construção de data centers no Brasil. ❓ Um data center ("centro de dados", em inglês) é um local que armazena e processa informações. Entre os modelos mais comuns, estão os de nuvem — cloud, para armazenar arquivos e operar serviços na internet — e de inteligência artificial, para treinar modelos de linguagem complexos. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Facilitar a construção de data centers é uma ação que alguns dos candidatos consideram importante para aproveitar o avanço da IA. Mas, enquanto o Brasil tenta atrair essas instalações, países como os Estados Unidos têm enfrentado protestos contra o avanço do setor. Com rejeição em outros lugares, por que candidatos no Brasil querem atrair mais data centers? Entre os motivos, estão as diferenças no tamanho dos mercados e nas matrizes energéticas dos países. Manifestantes protestam contra expansão de centros de dados de IA nos EUA Os EUA têm mais de 4.700 data centers e lideram o segmento, segundo dados de setembro do site Data Center Map. O Brasil, por sua vez, tem 218 complexos desse tipo e ocupa o 12º lugar no ranking. Com menos instalações, é preciso armazenar e processar muitos dados no exterior: o Brasil terminou 2025 com déficit de US$ 8 bilhões na balança comercial de Serviços de Computação e Informação, segundo a Brasscom, associação de empresas brasileiras de tecnologia. E, enquanto os EUA dependem principalmente de energia gerada por combustíveis fósseis, incluindo petróleo e gás natural, a eletricidade no Brasil é gerada em larga escala por fontes renováveis, como usinas hidrelétricas. O que há de comum no Brasil, nos EUA e em outros países é a discussão sobre o consumo elevado de energia e água por data centers: moradores de várias cidades americanas protestaram contra o avanço dessas instalações, e autoridades brasileiras questionaram os impactos desses projetos. Para Daniel Cordeiro, professor na Universidade de São Paulo (USP) e especialista em computação sustentável e de alto desempenho, o Brasil precisa aumentar sua capacidade computacional, mas deve tentar evitar problemas que estão sendo enfrentados em outros países. "Ainda não chegamos na quantidade de data centers e de problemas que esses outros países já têm. Temos que olhar para os problemas que estão acontecendo nos outros países e nos precaver para que o mesmo não aconteça aqui", diz. Segundo Thais Ortega, coordenadora de pesquisa da consultoria Reglab, a atração de data centers é um consenso entre os principais candidatos, mas há diferenças nos modelos previstos para alcançar esse objetivo. "Todos convergem para atrair, mas como será a atração? O Brasil tem uma posição estratégica, com vários pontos positivos. Não temos como prever se teremos ou não os problemas dos EUA, mas temos como tentar mitigar com regulações", destaca. Marina Garrote, diretora de operações do Reglab, diz que o Redata, regime brasileiro que reduz impostos para data centers, mas exige contrapartidas socioambientais, pode fazer o país superar alguns dos desafios enfrentados nos EUA. "Com a matriz energética dos EUA, mais data centers significam mais emissões de carbono e conta de luz mais alta para o vizinho. No Brasil, se a expansão for, de fato, baseada em energia eólica e solar, o custo social será um pouco diferente", afirma. Rejeição americana Protesto em Frederick, Maryland, contra a expansão de data centers Elizabeth Bauer Nos EUA, 64% da população discorda da ideia de que construir data centers rapidamente será positivo para o país, revelou uma pesquisa Reuters/Ipsos. O levantamento indicou que 57% são contrários à criação desses complexos em seus bairros. Mesmo com a forte rejeição, o presidente Donald Trump tem defendido o avanço das instalações. Em encontro com executivos de gigantes de tecnologia na última terça-feira (29), ele afirmou que esses empreendimentos serão muito populares no país. Entre os convidados, estavam Elon Musk, Mark Zuckerberg e Sundar Pichai, líderes da xAI, da Meta e do Google, empresas que desenvolvem modelos de inteligência artificial, além de Jensen Huang, da Nvidia, principal fabricante de chips para treinamento de IA. O encontro terminou com um compromisso das empresas para reforçar controles de segurança de seus modelos de IA após episódios em que eles saíram do controle e fizeram ataques cibernéticos. Trump disse que as companhias "querem fazer o que é certo" e vão se "autorregular". "Essas empresas grandes, poderosas, muito ricas e inteligentes farão contribuições enormes para as comunidades", disse Trump sobre os data centers. "Farão coisas realmente benéficas, tanto financeiramente quanto de outras formas". Trump reúne CEOs de IA e anuncia compromisso para reforçar controles de segurança Renúncia fiscal no Brasil O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou em setembro o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), que zera impostos de importação de equipamentos usados nos data centers. Para aproveitar o benefício, as empresas deverão usar apenas energia renovável ou de baixo carbono e gastar, no máximo, 50ml de água por quilowatt-hora (kWh). Elas também deverão destinar 10% da capacidade para o mercado brasileiro e 2% do valor dos equipamentos em pesquisa no país. Ronaldo Caiado, Flávio Bolsonaro, Lula, Renan Santos e Romeu Zema: candidatos à Presidência da República Divulgação Em suas propostas, Lula (PT) defende fomentar empresas brasileiras de inteligência artificial e criar versões nacionais de modelos de linguagem, como os usados por serviços como ChatGPT e Gemini. O candidato Flávio Bolsonaro (PL) defende reduzir impostos sobre energia para data centers e ligar a demanda dessas instalações à exploração nacional de minerais críticos, usados na fabricação de chips de IA. O plano de governo de Ronaldo Caiado (PSD) estabelece data centers como parte de uma cadeia de inovação, conectando-os ao desenvolvimento de semicondutores e modelos de linguagem no país. Renan Santos (Missão) propõe transformar o Brasil no maior exportador de processamento de dados para modelos de IA e criar zonas com regime tributário específico para data centers. Romeu Zema (Novo) defende a criação de um ambiente regulatório estável para garantir segurança jurídica para as empresas do setor. Os demais candidatos não citam data centers em seus planos de governo. O que vem pela frente? Daniel Cordeiro, da USP, aponta que as políticas para atrair data centers devem começar a ter efeito daqui a alguns anos, mas diz que é preciso se atentar a possíveis problemas o quanto antes. "Precisamos desse parque computacional instalado no Brasil. A questão é: temos que adaptar a nossa infraestrutura de indústria para ela poder se desenvolver, mas devemos tomar cuidado para que o impacto seja medido e não tenhamos um problema no futuro", afirma. RJO1, na Barra da Tijuca: data center registrou pico de 865 Gbps durante a estreia do Brasil na Copa do Mundo. Reprodução Thais Ortega, do Reglab, lembra que algumas partes do Redata ainda serão regulamentadas. Uma delas é a definição de "energia de baixo carbono", o que pode abrir margem para o uso de gás natural, um combustível fóssil. "Há pontos a serem fechados na questão de como medir a sustentabilidade que terão impacto sobre o próximo governo, que talvez dará continuidade e tomará algumas decisões. Está aberto e é algo que deve ser levado em consideração", afirma. Para Marina Garrote, do Reglab, o consenso entre os candidatos sobre a atração dos data centers também é explicado pela ampla rede de cabos submarinos de internet, que ligam o Brasil a outros países, e pelo mercado interno. "A disputa entre candidatos passou a ser de 'quais' serão as regras sobre a instalação de data centers, e não 'se' eles devem ser instalados", afirma. "Se vai valer a pena ou não, é algo que precisamos de mais pesquisa para estimar os benefícios e prejuízos para a população e a economia".

FONTE: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/10/03/mico-ou-inovacao-por-que-candidatos-querem-mais-data-centers-no-brasil-enquanto-cresce-a-rejeicao-nos-eua.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Anunciantes