Canoa fantasma e mortes encomendadas: como bandido do século 19 virou lenda urbana no interior de SP

  • 29/10/2026
(Foto: Reprodução)
Como bandido do século 19 se transformou em lenda urbana no interior de SP O Rio Mogi-Guaçu, em São Simão (SP), é cenário de uma lenda que atravessa gerações e envolve um dos criminosos mais conhecidos da história do interior paulista: Diogo da Rocha Figueira, o Dioguinho. A história conta que uma canoa aparece à noite, sozinha no meio do rio. Segundo a lenda, a embarcação pertencia ao criminoso, cuja alma continua vagando pelo local após sua morte, aos 33 anos. O mistério está relacionado ao desaparecimento de Dioguinho, que teria sido morto durante uma emboscada policial em 1897, no Rio Mogi-Guaçu. A professora e pesquisadora Nilce Camila de Carvalho, autora de uma tese de doutorado sobre a construção da imagem do criminoso, explica que a falta de confirmação sobre o destino do corpo contribuiu para que surgissem versões de que ele teria até sobrevivido. “Essa descrença em relação à morte dele ajudou, inclusive, nessa teoria de que ele virou um fantasma mesmo”, afirma a pesquisadora. Bandido Dioguinho Arquivo histórico de São Simão A canoa e a lenda do fantasma A história da canoa aparece em diferentes representações sobre Dioguinho. Uma delas é a canção 'A Alma de Dioguinho', que retrata uma embarcação navegando pelo rio e associa o criminoso a uma presença sobrenatural. Em uma estrofe da música, a dupla Denilson & Denivaldo canta: Fui sentindo uma coisa estranha e o meu corpo todo arrepiou, uma canoa sem ninguém remando cortou correnteza e na margem parou [...] Quando olhei novamente a barranca, a canoa já tinha sumido. Só ouvi com bastante clareza, uma voz e um triste gemido: 'Sou Diogo da Rocha Figueira, o Dioguinho'. Nilce diz que a canção alimentou ainda mais a imaginação popular e ajudou o público a encarar a lenda como realidade. “Essa questão ainda alimentou muito a imaginação popular mesmo, o fato do cantor pensar nessa possibilidade. É claro que eu mesma acredito que ele morreu mesmo emboscado, mas as narrativas, algumas canções, têm muito dessa ideia (do Dioguinho ser um fantasma)”, afirmou a pesquisadora. Ilustrações do bandido Dioguinho Livro Dioguinho - João Amoroso Netto / HQ Cão - Breno Ferreira Segundo Nilce, a narrativa também tem relação com uma obra publicada em 1903 pelo delegado Antônio de Godói, intitulada "Dioguinho: narrativas de um cúmplice em dialeto". No final do livro, a canoa aparece em uma cena sobrenatural que envolve Dioguinho e o irmão dele. “No final do livro, ele fala que a canoa do Dioguinho ia com o irmão dele, balançando a cabeça ensanguentada, pendurada na canoa. E o Dioguinho também, meio que de uma maneira sobrenatural. Então talvez até a música tenha aproveitado também dessa lenda, já que foi trazida por esse delegado lá em 1903”, explicou. Outro elemento da lenda é a chamada Cruz do Diogo, associada à memória do criminoso e cercada por relatos de pessoas que dizem ouvir gemidos no local. A referência também aparece na canção sobre a alma de Dioguinho. Em uma outra canção da época, do autor Paulo Lopes Garcia, uma estrofe fala sobre o assunto: “Em volta da sua cruz se ouve forte gemido, deve ser a alma penada desse valente bandido. Matava pra ver o tombo, mas um dia foi vencido” O temido Dioguinho Nascido no dia 9 de outubro de 1963, em Botucatu (SP), Dioguinho atuou principalmente no interior paulista e ficou conhecido durante o crescimento da economia cafeeira na região de São Simão e Ribeirão Preto, no fim do século 19. Segundo Nilce, ele trabalhou como agrimensor e ocupou funções públicas. Com o tempo, passou a atuar como matador de aluguel a serviço de coronéis e fazendeiros envolvidos em disputas políticas e econômicas. “Um grupo não se dava muito bem com o outro, grupos que haviam bastante discussão. Então ele acabou se transformando em matador de aluguel, a mando de alguns coronéis, e ele resolvia essas questões políticas mesmo”, explicou. Dioguinho (na esquerda), ao lado de seus irmãos João e Sérgio Livro Dioguinho - João Amoroso Netto A pesquisadora afirma que os interesses desses grupos ajudaram a manter Dioguinho protegido. Para ela, esse contexto é importante para entender tanto a trajetória do criminoso quanto a forma como sua história foi contada posteriormente. “Então, de certa forma, ele serviu bastante aos interesses desses coronéis e tudo, e, ao fim, depois, nenhum deles foi envolvido nos crimes do Diogo”, disse Nilce. O medo que ele provocava também contribuiu para a construção de sua fama. Com o passar do tempo, relatos de ações atribuídas a ele foram ampliados tanto no papel como na fala do povo. Nilce ressalta que nem todos os crimes associados popularmente a Dioguinho aparecem nos processos judiciais analisados por pesquisadores. “E, claro, ele era um matador sanguinário, porque muitos processos trazem algumas informações sobre isso, mas muito foi aumentado também, as narrativas, muitas escritas por delegados. Então, assim, eles colocaram ele como facínora”, afirmou. De acordo com registros de delegados e jornais da época, ao todo, estima-se que Dioguinho matou pelo menos 20 pessoas até a sua morte em 1987. Segundo a pesquisadora, essas narrativas também deram origem a histórias sobre supostos rituais e características sobrenaturais atribuídas ao criminoso. “Então várias lendas envolviam que ele cortava as orelhas das vítimas para comprovar a morte, e que ele usava isso para rezar as horas marianas, para manter o corpo dele fechado”, explicou. São Simão no século 19 Arquivo histórico de São Simão Uma morte cercada de mistério De acordo com versões reunidas por Nilce, após a sequência de crimes, Dioguinho começou a ser procurado e com ajuda de um amigo, chamado Urbano, se escondeu em uma fazenda com o irmão, João. Mas o mesmo Urbano que ajudou no esconderijo, revelou a localização para as autoridades e uma tropa policial preparou uma emboscada às margens do Rio Mogi-Guaçu. Na versão descrita pela pesquisadora, Dioguinho e o irmão atravessaram o rio de canoa para buscar mantimentos. Quando se aproximaram da margem, os policiais atiraram. João morreu, mas o corpo de Dioguinho nunca foi encontrado, mesmo após buscas. Segundo Nilce, o desaparecimento somado às histórias que já circulavam sobre sua violência e suposta proteção sobrenatural ajudou a manter a dúvida sobre seu destino. “Então, possivelmente, ele caiu, levou mesmo um tiro. A tropa já atirou assim que eles se aproximaram da margem, porque não tinham interesse mesmo em prendê-lo, porque, inclusive, se prendessem ele, ele poderia delatar muitas pessoas poderosas na época. Então, a ideia era mesmo uma queima de arquivo”, afirmou Nilce. Jornais da época falavam sobre Dioguinho Arquivo histórico de São Simão Vivo? A pesquisadora explica que, na época, chegaram a ser publicadas denúncias em jornais afirmando que o criminoso estaria vivo e vivendo em Minas Gerais. A própria polícia também enviou um grupo para investigar a suposta morte após o confronto de 1897. “Justamente esse fato de o corpo dele não ter sido encontrado, isso fez com que a população não acreditasse que ele havia morrido”, explicou Nilce. A forma como o confronto é descrito também contribuiu para as diferentes versões. Segundo a pesquisadora, algumas narrativas dizem que Dioguinho foi atingido pelos tiros e caiu no rio. Outras afirmam que ele teria mergulhado e escapado. Ao mesmo tempo, há relatos de que ele não sabia nadar e tinha medo da água. A morte de Urbano meses depois também alimentou os boatos. Segundo Nilce, surgiram versões de que Dioguinho teria sobrevivido e se vingado por ter sido delatado. Não há, porém, informações que comprovem quem matou Urbano ou qual foi a motivação do crime. “Não se sabe se mandou assassinar ele, como que foi, nada disso tem informações. Mas o fato de ele ter morrido fez com que as pessoas falassem que era o Dioguinho, que ele estava se vingando por ter sido delatado por ele”, explicou a pesquisadora. Mais de um século depois, a história de Dioguinho continua presente na memória regional por meio de relatos sobre a canoa, narrativas sobre seu fantasma e obras que misturam fatos históricos e elementos lendários. *Sob a supervisão de Thaisa Figueiredo Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/10/29/canoa-fantasma-e-mortes-encomendadas-como-bandido-do-seculo-19-virou-lenda-urbana-no-interior-de-sp.ghtml


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